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Quando usar o liquidificador ou o processador?

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Quando usar o liquidificador ou o processador? | Harpyja

Hoje respondo por volta de 80 comentários por dia dos diversos produtos que avaliamos e frequentemente há perguntas questionando qual o melhor liquidificador para bater pasta de amendoim, moer carne, grão de bico, bolos etc. 

Muitas vezes a resposta não é qual o melhor liquidificador, e sim qual o melhor aparelho para executar tal tarefa. Há situações onde o melhor eletroportátil é um moedor ou um mixer, mas na maioria dos casos é uma questão de decidir entre usar o liquidificador ou o processador. 

Normalmente é possível obter resultados similares nos dois, porém o trabalho e o sofrimento de cada equipamento para realizar a tarefa muda muito de acordo com o que irá bater. 

É por isso que decidi escrever este material hoje. Entendendo melhor como cada um funciona irá facilitar sua escolha de qual utilizar em cada situação. 

Diferenças Determinantes

Há algumas diferenças consideráveis entre o liquidificador e processador independente do modelo que encontrar no mercado. Algumas são visíveis e outras nem tanto.

Lâmina, jarra e movimento

A diferença mais evidente é ligada ao desenho das facas de corte dos liquidificadores e processadores. Há diversos estilos de lâminas de liquidificadores, porém quase todas são pequenas versus o volume disponível na jarra. Por consequência as jarras são cônicas no fundo para trazer os alimentos para as facas. 


As lâminas de liquidificadores possuem leves ângulos para criar um fluxo no líquido quando batendo, trazendo os alimentos pelo centro para o fundo. 


Nos processadores as lâminas são maiores em relação ao volume e as facas são paralelas ao fundo, para gerar um corte horizontal. Não se busca um fluxo de cima para baixo no centro, até porque o centro normalmente é ocupado pela lâmina de cima até embaixo. 


Neste caso as lâminas cortam jogando os alimentos para as paredes, e na maioria dos processadores as paredes são cilíndricas, levando tudo facilmente para baixo pela ação da gravidade.

Com essas informações já é possível prever alguns alimentos que funcionam bem no processador e não irão tão bem no liquidificador. Pense em grãos oleosos (oleaginosas). Assim que ocorre o corte, o óleo desses grãos ajuda a prendê-los nas paredes, dificultando o movimento dos alimentos. Neste caso, o processador possui muito mais facilidade para executar este movimento, pelas paredes cilíndricas, facas empurrando os alimentos para as paredes e varrendo o fundo do copo. Por outro lado, alimentos muito líquidos sofrem maior turbulência quando usando o processador, pois estão sempre sendo jogados contra a parede e no liquidificador estão sendo puxados de cima para baixo. 

Mas e se o grão for seco, qual usar? Neste caso vale abordarmos a outra diferença, muito importante e que não é tão visível entre o liquidificador e o processador.

Velocidade de corte e força

O liquidificador possui velocidade de corte altíssima, normalmente acima de 10 mil rotações da faca por minuto. O processador trabalha com velocidades bem mais baixas, em torno de 10 vezes mais baixa que o liquidificador (1000 - 3000 rotações por minuto). 

Mas o que isso quer dizer? 

Os processadores para terem velocidades mais baixas acabam usando um sistema de redução, que quando baixando a velocidade, aumentam sua força no eixo. Com isso, rotacionam mais lentamente, porém com maior poder para movimentação. Por outro lado o liquidificador possui menos força, mas tem muito mais velocidade de impacto e isso faz toda a diferença na entrega do resultado. 

Voltando a ideia de bater grãos secos, quando usando algo com velocidade baixa normalmente não há impacto forte o bastante para realizar um corte desses grãos, e com isso a eficiência do processador é limitada. O liquidificador neste quesito tem muita força e um liquidificador bem projetado consegue movimentar os grãos secos e cortá-los. Há situações onde não se deseja muito impacto por acabar aquecendo o alimento na moagem, e nesses casos o melhor caminho é o moedor. Há alguns liquidificadores que possuem lâminas para trabalhar como moedor (Mallory B.Power), e acabam entregando resultados decentes, mas raramente tão boas quanto um moedor dedicado.

Outro ponto importante é que com velocidades menores o controle de corte é muito maior. Batendo cebola, tomate, e outros ingredientes que possa querer tê-los pouco picados é muito mais prático realizar esse processo no processador. Com as velocidades do liquidificador tudo vira líquido em segundos. 

Combinando as diferenças

Há alguns produtos que se julgam ser liquidificador e processador no mesmo pacote, porém raramente a entrega é tão boa quanto esperada. Um exemplo é o Oster New Reverse. O produto é um liquidificador, porém diz entregar resultados de processador por rotacionar as lâminas para os dois lados. Há algumas coisas que o Reverse entrega, como corte de vegetais de forma interessante, porém não consegue lidar bem com ingredientes oleosos. Irão assim mesmo acabar nas paredes. Além disso, não há redução no motor e se bater ingredientes viscosos, o motor será sobrecarregado. 

Outro produto é o Philco Samurai. Neste tipo de produto foi feito um passo intermediário, colocando lâminas de processador com um pouco de redução no motor para aumentar a força. O resultado é um produto mais ou menos nos dois quesitos. Para muita gente pode ser que atenda, mas para aqueles acostumados com o impacto do liquidificador, provavelmente ficarão desapontados.

Por último é o uso de liquidificadores de alta potência, como o Blendtec. Esse produto tem lâminas grandes que chegam perto das paredes da jarra e tem uma potência acima de 1500W e pode trabalhar nessas condições agressivas por minutos sem sobreaquecer. Neste caso o produto muitas vezes entrega o resultado de processador e liquidificador, mas trabalha com o motor no limite da potência em muitos momentos. Ou seja, entrega, mas sofre.


Moendo Carne

Um exemplo interessante desses produtos trabalhando é quando batendo carne. Realizando um teste comparativo entre o processador, liquidificador e um liquidificador potente é possível entender porque a eficiência é tão diferente em cada produto. 

Neste teste foi utilizado 500 gramas de peito de frango para cada um dos produtos. Para facilitar a comparação o motor do processador foi o mesmo usado para o liquidificador. No motor há uma redução quando encaixando a jarra do processador. Segue abaixo as velocidades de rotação (por minuto) medidas de cada produto:


Quando batendo carne no liquidificador, rapidamente o produto bate o limite da potência, e fazendo um trabalho contínuo nessa condição, a temperatura do motor sobe rapidamente e em pouco mais de um minuto o protetor térmico abre para evitar que o produto estrague. É possível bater carne dando folgas para o motor, pulsando e usando uma espátula de auxilo. Porém assim mesmo o motor trabalhará no limite e com isso trará uma redução na vida útil do motor.


Usando o mesmo motor mas com um processador, a potência demandada é muito menor (por volta da metade) e com isso o conjunto trabalha folgado. Bater carne aqui é simples e sem a necessidade de ficar abrindo a tampa para manipular o alimento. 


Por último colocando no liquidificador potente fica claro que sem redução a força exigida é absurdamente alta. O Blendtec tem 1560W de potência e mesmo na velocidade mínima, os 500 gramas de carne exigiram toda sua força para concluir o trabalho. 


A carne é um elemento fibroso, com uma certa viscosidade que enrola nas lâminas do liquidificador quando trabalhando. Levando em consideração as diferenças dos produtos, um alimento mole de difícil movimentação será sempre mais prático bater no processador. 

Picar, ralar e emulsificar

Não mencionei anteriormente, por ser algo mais óbvio, mas o processador é ideal para picar e ralar ingredientes, até por frequentemente já possuir facas para esse tipo de trabalho. Nesses casos, os processadores possuem diversos utensílios extras para executar outras tarefas como emulsificar, espremer sucos, bater massas... Nestes casos o processador começa até a resolver tarefas que frequentemente se usa uma batedeira para dar ponto. 


Bolo 

Bolo é um item interessante, pois às vezes são utilizados ingredientes duros para bater (cenouras, por exemplo), e aí fica aquela dúvida de como bater. Liquidificadores normalmente são usados para bater os ingredientes duros e depois são usadas as batedeiras para finalizar o trabalho. Em grande parte das vezes é possível realizar todo o processo no liquidificador, porém como a massa fica viscosa, pode sobrecarregar o motor. Caso os ingredientes duros sejam cozidos, provavelmente poderão ser cortados no processador, e neste caso, se a jarra for grande o bastante baterá sem problemas no processador, e sem forçar o motor. 

Resumindo

  • O processador com velocidades mais baixas dá muito mais controle para acertar a consistência dos alimentos. 
  • Como as facas são grandes e empurram o alimento para a parede, lidam muito bem com alimentos viscosos e moles.
  • Como há redução de velocidade para ganho de torque, mesmo processadores com baixa potência têm força considerável.
  • Como o processador rotaciona mais devagar, não possui impacto forte o bastante para quebrar grãos duros e secos.
  • Devido a alta velocidade de rotação e os ângulos das facas, o liquidificador é imbatível para movimentar ingredientes líquidos.
  • Ingredientes viscosos, mas líquidos como bolo, podem ser feitos em ambos, porém vale lembrar que a potência demandada no liquidificador será maior. Lembre-se que o volume no processador é limitado para o preparo de um bolo. 

Imagino que com esses pontos em mente fica mais fácil decidir em qual produto bater os principais ingredientes diários. Há alimentos que geram dúvidas, como o açaí, que muitas vezes está congelado e quando batido ficará líquido. Apesar de parecer duro, açaí se sai muito bem em processadores.

Diria que quando está com dúvida, vale antes começar pelo processador, pois trabalha com folga de potência e se der certo é mais fácil de controlar a consistência. 

E você, quais ingredientes bate e em qual eletroportátil prefere batê-los?


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Sobre o autor

Cirilo Cavalli é um engenheiro detalhista e criterioso. Passou mais de 10 anos desenvolvendo tecnologias e testes para eletrodomésticos ao redor do globo. Ele possui grande paixão pelo que faz e se preocupa em sempre trazer informação clara e útil utilizando dados para auxiliar seus leitores a tomarem as decisões mais adquadas para os produtos que buscam.

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